Trinta

 O dia amanheceu nublado, não muito fresco. Deitada na cama quase que completamente imóvel, apenas as pálpebras se abrem e fecham, tentando suportar o peso dos cílios marejados. Não me movo. Nenhuma parte do meu corpo reage. Meus braços tão adormecidos que mal os sinto formigar. Me observo no reflexo do guarda roupas escuro, preto como as pupilas dos olhos, que se camuflam na escuridão.

Escuto chinelas a bater fortes no chão, o barulho quase estridente me incomoda, me traz uma inquietação que me faz querer levantar, arrancá-las dos pés de quem está causando esse desconforto e lhe arrebentar a cara com elas, mas não o faço, não me movo. Escuto um grunhido de dor, uma respiração cansada. Sou eu? Sim, sou eu. Fico a pensar como posso estar com a respiração tão cansada se nem me levantei ainda.


Tenho que me levantar. Penso eu. Porém sigo imóvel, não espreguiço. Rolo completamente na cama estreita e não saio do lugar. Não consigo alcançar meu celular debaixo da cama para saber que horas são. Não, eu não tenho um relógio. Já faz tempo inclusive que as pessoas deixaram de ter um. Um ou outro utiliza por status, mas quando querem consultar que horas são, utilizam o celular. Todo mundo tem celular hoje em dia, uns mais modernos do que os outros, mas ainda sim os tem. E se os tem e lhe serve para consultar as horas, para quê relógio? Para enfeitar, eu sei.


Enfim consigo me mover e alcançar meu celular. Puxo- o com as pontas dos dedos e quase o enterro para debaixo da cama escura e empoeirada. De onde vem essa poeira toda? Eu não limpei isso ontem? Afastei a cama para lá e pra cá. Quase perco a espinha da coluna. Deu um estalo tão alto que pensei que houvesse se desintegrado do meu corpo. Saindo voando por aí. Estilhaçando todo o vidro da janela.


O relógio marca 07h27. Porque diabos estavam fazendo tanta arruaça antes das 07h da manhã? Por acaso não tem mãe esses vagabundos? Lembro que tem e que ela é justamente assim: inconsequente, antipática e egoísta. É dela que os filhos herdaram toda essa falta de respeito e essa soberba. Pensa que é superior. Pensa não! Tem absoluta certeza. Se acha rica, compra tudo de marca. Gosta de coisas importadas, mas com o salário da empregada não se importa. A registrou como funcionária fantasma em sua empresa e paga o piso para faxineira para ela. Porque não? A empresa é minha, tenho que lucrar com isso. Eu sou a dona e diretora, eu faço o que eu quiser. Se entrarem na justiça vou julgá-la ingrata, onde já se viu? Depois de tudo que já fiz por ela. Dei aquela TV velha que iria para o lixo porque não pegava direito, mas tava ótima, limpinha. Pedi que ela desse uma geral nela e ficou como nova. Isso sem falar de quando ela inventou de ter menino. O namorado tomou chá de sumiço e eu deixei ela continuar morando no quartinho de empregada com a criança. Deixava ela cuidar dela enquanto fazia as coisas da casa. Até fralda eu comprei.


Agora já passa das 08h e eu ainda não consegui me levantar. Lá fora já tem música alta .Um samba em pleno domingo de manhã. Não satisfeitos com a música que ecoa estridente da caixinha de som que trouxeram dos EUA, cantam alto, berram mais do que o despertador do proletariado às 05h da manhã. Acho que o objetivo é o mesmo. Acordar quem trabalha de segunda à sábado e só tem o domingo para descansar. Na verdade não. É preciso dar faxina na casa, ou devo dizer sobrado, barracão, como a patroa enche a boca para falar, mas mal tocam-se os lábios quando fala de tanto desprezo, tanto nojo. Fala como se houvesse um pedaço de torta da Aibileen Clark de Vidas Cruzadas entre os dentes, mas o orgulho é tanto, não pode perder o controle, então engole aquela merda toda.


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