RETRATOS DE UM ISOLAMENTO SOCIAL PERENE

 Já havia um tempo que me encontrava irritada, com raiva, um ódio inexplicável. As redes sociais já não mais faziam sentido. Cheguei a conclusão que toda aquela estrutura para os "5 minutos de fama" não passam de um complemento da vida (externa). Sua única função é fazer o indivíduo consumir. Consumir coisas, consumir cultura, consumir para se mostrar ativo na vida, para mostrar que gosta ou não de determinadas coisas e se encaixar num grupo, seja dos populares ou dos 'diferentões'. A intenção é consumir para pertencer. Consumo, logo existo. A liberdade de expressão é só fachada, ninguém mostra a realidade, só o "belo" é permitido.

 Porém, diante de toda essa crise na saúde mundial, que acarretou (não... Apenas escancarou mesmo), diversos outros problemas, me vejo triste. Sim, toda aquela raiva é pura mágoa. Estou triste! Triste por tudo isso que está acontecendo. Triste porque esse caminhão desgovernado desce ladeira abaixo, todos os dias, diante dos meus olhos e eu não tenho voz para gritar que ele pare. Triste porque há pessoas que continuam olhando pro próprio umbigo, incapazes de tirar a viseira e olhar para o lado (ou para baixo como pensam). Triste porque enquanto a maioria pobre preta se arrisca todos os dias para carregar nas costas a minoria branca privilegiada que continua a consumir chocolates e filés, enquanto muitos não tem o que comer. Triste porque me sinto deslocada no mundo. Sou preta pobre, porém privilegiada, tenho acesso a muito, mas não sinto que tenho o suficiente. Não tenho liberdade de ir e vir, não tenho saúde mental, física... e quase não construo laços, pois estou em cima do muro e daqui não consigo me soltar, não consigo dar a mão para quem precisa se levantar, pois estou muito distante, apesar de estarmos lado a lado.

 Tenho medo, sinto medo, sempre senti... 
Por trás dessa cara fechada, dessa carapaça grossa, que me distancia de todo contato próximo com os outros, existe uma mulher sensível, frágil-forte, machucada, cheia de buracos no peito e lágrimas nos olhos. Incapazes de transbordar por pensar não ser justo alguém com tanto chorar, enquanto quem tem pouco, quase nada, levanta a cada dia com sorriso no rosto e agradece por estar vivo. Sim, mais uma romantização do pobre preto trabalhador. Seria eu ingrata? Por ter tanto e compartilhar tão pouco...

 Não, não me vejo ingrata! Porém, sinto que não faço o suficiente para mudar essa realidade. Escuto, todos os dias, menções de ódio e desprezo ao pobre preto, a favela, morro, aglomerado, e me calo. Sim, me calo porque diferente de mim, quem diz, nunca subiu o morro, nunca conversou verdadeiramente com o pobre de igual para igual, não conhece a realidade. Assiste ao noticiário e aplaude as forças brutas do estado que entram sem pedir licença e acertam o alvo mais fácil, o menino preto que ocupava a calçada, a mulher preta que tentou interceder e teve sua voz calada, sua vida tirada. Pensando bem... Sou ingrata! Não ao sistema injusto que enaltece o privilegiado branco e despreza o pobre preto da favela, e que sim me deu muito nessa vida (bens materiais, saúde, educação de qualidade), mas ingrata ao meu povo! O preto pobre que sorri e abaixa a cabeça para o patrão, aos que tentam revolucionar e defender os nossos semelhantes, aos que perderam a fé no homem e venderam a alma para a "bandidagem", pois não há outra saída... Sinto-me triste porque meus ancestrais choram vendo tudo isso, depois de tanto sofrimento, tanto sangue derramado, nada mudou...

  Mais o um menino, preto pobre da favela,  morto...Assassinado! Não puderam defendê-lo, não puderam se despedir. Foi levado, arrancado de seu lar, por forças brutas genocidas.

 Não deixemos toda a luta ser em vão... Não deixemos para lá...Não deixemos que se acostumem com mais essa chamada no jornal da TV. Mais um caso... Não! Chega... Basta!
  Não é "mais um", é mais uma VIDA! Somada a milhares de outras vidas, que importam!

  Mais de 75,5% dos homicídios no  Brasil são de pessoas negras (Atlas da Violência - Ipea, 2019). Até quando vão ignorar essa realidade alarmante? Até quando vão tratar como"bala perdida"? Até quando vamos deixar que digam que acertaram "por engano" OITENTA tiros? Até quando vão se dar o direito de tirar a vida de uma criança, de um jovem, de um trabalhador, de uma mãe, de um pai, de um amigo, se um familiar, por ser preto? Ser preto é mais que a cor da pele, é carregar no peito a angústia de cada familiar que tem um preto a menos para a mesa do almoço de domingo. É sentir na pele o respingar do sangue de seu semelhante. É sentir que engole a seco a raiva por medo, medo de falar e ser interrompido na jornada da vida. É desviar o olhar e se afastar de tumultos, mesmo sendo inocente... Quem vai acreditar? Quem poderá nos defender se não nós mesmos? Eu por você, e você por mim.

 Vamos barrar isso de uma vez por todas. Comece pelo seu familiar, seu colega de trabalho, seu vizinho. Ao ouvir qualquer palavra racista, de desprezo, FALE! Não se cale, não deixe que isso atinja mais milhares de vidas. Use as redes sociais para o que de fato importa. Mostre que você existe!

  Assassinos não passarão.
  Racistas não passarão.
 



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