Prosas do além
Aprecio uma boa prosa, daquelas sem compromisso, que se pode dizer o que pensa, contar um causo repetidas vezes, e em cada uma delas aparecer um detalhe não antes mencionado, dar dicas de culinária sem nunca ter feito mais que uma macarronada num dia de domingo.
É nessas horas que o gargalhar da alma toca o peito, faz aquecer e acelerar o coração, e escancarar o sorriso em qualquer outra feição.
Porém, confesso, que gosto mesmo é prosear com desconhecidos, principalmente aqueles que já se foram. Com eles bato aquele papo, utilizo entonação distinta para cada ocasião, pois gosto de imaginar como foi aquele momento e ouvir cada um, e discutir com eles. Fico brava mesmo! Me zango, me apaixono, esmoreço, rio das presepadas deles, algumas vezes para dentro de mim mesma, outras externalizo, ficando meio sem graça quando flagrada por um terceiro ao fazê-lo.
Também paro sempre para pensar, "como pode ser tão inteligente?" E como tudo parece se encaixar perfeitamente...Às vezes, sinto que poderia estar dizendo exatamente aquilo, só não sei se usaria artefatos tão bem elaborados. Ou talvez aquilo estivesse sendo dito diretamente para mim. Só para mim! Fora um diálogo exclusivamente meu e daquele que fala vindo do além. Uma conversa quase que íntima.
Todo início de uma prosa sobe aquele perfume de novo que me entope as narinas, mas não resisto a dar aquele 'cheiro' neles. Ou vem aquele cheirinho de velho que me faz espirrar a cada meia dúzia de palavras, e querer afastá-las na tentativa de evitar senti-las. O que nem sempre é possível pois as miudezas das histórias não se permitem serem entendidas a partir de determinada distância.
Tem dias que são minha melhor companhia, logo cedo, começam com uma falação em minha cabeça que acarretam em um turbilhão de pensamentos que por vezes me deixam eufórica, triste, e até me põe louca querendo desvendar qual será o próximo passo, fico a pensar se irá falar com ele, "tomarás coragem?" Ou ficará nesse eterno "lenga-lenga?"
Mistério demais me irrita, mas sim, eu não resisto a saber a cor das vestes, e se está vendando o suficiente para esvoaçar-lhe as madeixas escuras e encaracoladas.
Me acompanham inclusive na hora de repousar. Fico com os olhos a piscar, ardidos de tanto esforço para deixá-los abertos, as palavras se embaralham e me fazem ler duas ou mais vezes a mesma frase, como quando fico incrédula com o que foi dito. Isso vai até adormecermos abraçados, eu apertando-lhe as orelhas.
As despedidas deixam sempre um vazio, uma saudade... Por alguns dias sinto como as ruas numa quarta-feira de cinzas no centro da cidade, ou como as primeiras semanas das férias escolares quando se é criança, estando feliz por ter chegado ao fim das histórias vividas, mas ao mesmo tempo, sentindo falta daquela rotina e dos "amigos" que fizeste. Porém no fim,basta que o próximo da fila chegue dando-me as mãos, abrindo caminho para juntos partimos para uma nova aventura.
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